Ao longo da minha trajetória, que neste 2021 alcança cinquenta anos no setor de seguros, vivi situações inusitadas e conheci personagens inimagináveis. De fato a vida é mais intensa e espetacular que a ficção.

Foram muitos nomes, muitos, mas talvez nenhum tão espetacular como: Luis Carlos da Silva, o Caburé, cuja empresa conta 58 anos de existência, e virou lenda no mercado segurador gaúcho. Conheci Caburé profissionalmente quando era menino, em 1970, e começava a vida trabalhando com seu irmão, Cláudio Fernando da Silva, na então Assicurazioni Generali Di Trieste e Venezia, hoje Generali do Brasil. Antes disto já sabia de suas histórias que corriam pelo Arraial da Baroneza, onde me criei e onde meu pai e mãe vizinhavam com o Velho Babá, nada mais nada menos que o ´pai da criança`, e por onde ele ‘aprontava’ do início ao fim do dia.

De 1970 para cá, sempre andamos juntos como amigos, e ainda que na época houvesse diferença de idade a considerar, ele nunca tornou isto relevante, mas da minha formatura em 1982 para cá, os escritórios nunca mais se separaram considerando aquilo que sei fazer: advogar.

Caburé é uma personalidade que te empresta uma importância que nem sempre se tem e daí sua inteligência aflora. Ao exagerar convictamente nas tuas qualidades ele faz o indivíduo crescer e se capacitar a fazer coisas que normalmente não faria: doping puro, adrenalina na essência.

Muitas das vitórias e conquistas – se não todas – obtidas em conjunto estão debitadas nesta conta. Certa vez num almoço do SINDSEG RS o Presidente Júlio César Rosa fez uma lista de diversas frases ditas por Steve Jobs em sua recente trajetória e depois comparou com frases feitas por Caburé há 40 anos. Um visionário. Entre tantas pérolas uma delas era a resposta para quando se perguntava como ele ia? “Começando, eu estou sempre começando!” – era o que respondia.

É do Júlio a grande homenagem em frase para ele: “todos querem ser como ele, mas só ele consegue ser o que é”.

Não tenho as contas de quantos casos daria para contar nestes anos todos de convivência, mas me atrevo a lembrar uma passagem.

Caburé sempre teve diversos estipulantes com diretorias compostas por muitas pessoas. A forma que tinha para reunir em cada um deles todos ao mesmo tempo e se confraternizarem, numa transparência que ele inventou, era reunirem-se uma vez ou outra num restaurante, com parte dos agenciadores, para degustarem um bom churrasco e se embrenhar por parte da tarde entre acaloradas conversas, que variavam do trabalho diário, sendo o que mais lhe agradava, de todos os assuntos possíveis. Este pequeno segredo, que parece fácil de imitar, mas que não é, porque exige a presença dele para dar certo, foi a base da manutenção de sua clientela em que misturava amizade/celebração e trabalho/talento.

Certa vez não tendo data Caburé marcou três almoços ao mesmo tempo com três estipulantes diferentes e em três lugares diversos, que ficaram lotados, diga-se de passagem. Para se fazer presente nos três lugares – sem que nenhum deles soubessem do esquema, Caburé escolheu restaurantes próximos e estrategicamente estruturados para ´esconder` da vitrine da calçada a visão interior.

E escolheu todos na mesma rua, Riachuelo. A Churrasquita, que mantinha um salão grande nos fundos, o Devon, quase em frente um pouco mais à esquerda e do outro lado da rua, e que também mantinha um local bem afastado da entrada e o Hereford, uma quadra para cima, com as mesmas condições e um pouco mais distante. Caburé se fez presente nos três almoços e seus afastamentos rápidos sequer foram notados. Eu estava num deles, o da Churrasquita, com a incumbência de manter o debate acirrado.

Como ele fazia? Ele deu a fórmula. “Fiz como fazem os equilibristas de pratos, chineses, aqueles que com uma vara colocam um prato na ponta, giram, giram e os pratos ficam ali, rodopiando durante um tempo. Lançava em um lugar um debate acalorado numa roda tipo quem é melhor, Maradona ou Pelé? E sempre deixava alguém para incentivar os ânimos da divergência … pronto os pratos passavam a rodar. Ai saia de fininho ia no outro e lá metia outro assunto estrondoso na conversa, Deus existe ou não? Pronto, lá ficavam os pratos a mil, girando. Ia para o terceiro encontro e lá mais uma lenha na fogueira, qual o melhor sistema, capitalista ou socialista? E lá se iam os pratos girando feito loucos. Neste terceiro eu já sabia, os pratos do primeiro já estão começando a ficar lentos e podem cair … então voltava correndo já com outro assunto em mente = Sofia Loren ou Elizabeth Taylor?”

Gostou tanto da técnica, e ele vivia e sobrevivia, se alimentava e se drogava, de desafios, que fez estas reuniões exaustivamente. Levaram anos para descobrir, porque até a hora de ir embora ele selecionava horários separados, e os grupos na realidade não se conheciam. O conhecido era ele.

Descobriram quando ele quis que descobrissem. Justamente para virar história.

Certa vez no aeroporto de Buenos Aires, no Duty Free, ele olhou um óculos experimentou e indagou da balconista: gostou? Ela disse, ficou lindo, perfeito. Ele respondeu, então não quero! O planejamento estratégico e o plano de qualidade era ele. O Gênio!

 

*Carlos Josias Menna de Oliveira– OAB/RS 16.126

É advogado, professor diplomado, Acadêmico da ANSP e membro da Cátedra de Seguro de Danos: RC da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP.

 

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