Comecei a trabalhar com seguros em uma época em que éramos preparados para a função. Mesmo iniciando como Office boy, estagiei um dia em cada departamento da seguradora para me familiarizar com toda a estrutura.

Em minha carreira de 53 anos que se completou neste mês de agosto, passei por cinco seguradoras e duas corretoras de seguros até fundar a minha própria corretora que completou 30 anos em 04de junho de 2014.

Tive como professores verdadeiros ícones do mercado segurador brasileiro, como por exemplo, Sergio Túbero, Luiz Pamio, Mário Grampa, Júlio Laghetto e muitos outros. Para retribuir tudo que me ensinaram ministrei aulas durante 24 anos ajudando a formar novas celebridades em nosso mercado.

Devem estar se indagando onde eu quero chegar, me explico: muitos valores e princípios tidos como básicos para o bom funcionamento e ordenamento de nosso mercado segurador hoje são meramente ilustrativos e ignorados para dar ênfase ao financeiro, ao ganho.

Dr. José Francisco de Miranda Fontana, que influenciou muito no meu aprendizado explicou que o seguro se baseava em alguns princípios, tendo como básicos a Incerteza da ocorrência do evento e a mais estrita Boa Fé. Este último originou o nome da primeira seguradora fundada no Brasil, “Boa Fé” com sede na Bahia.

A Boa Fé, palavra rara nos dias de hoje, começou a sumir de nosso mercado com o Plano Diretor para o Mercado de Seguros assinado em 1992, pelo então, Presidente Collor.

Não estávamos preparados para operar em um mercado livre, começaram as concorrências predatórias, tanto pelas seguradoras como pelos corretores de seguros, os prêmios despencaram sem se preocuparem com os cálculos atuarias, vieram os sinistros, e com o Plano Real a especulação financeira acabou, as margens de lucro diminuíram e o resultado está aí.

Vão notar que o meu foco principal esta nos seguros patrimoniais, mas também abordarei outras modalidades.

Eu aprendi que sem o risco não se pode fazer seguro. Será? Lendo um artigo do respeitável Acadêmico Dilmo Bantim Moreira onde ele menciona que em um futuro próximo as seguradoras passarão a exigir o teste de “DNA” para que os seguros de vida ou saúde sejam aceitos.

Agora sou eu que pergunto: onde está o risco? Todos os segurados que tiverem algum gene ruim não será aceito pela seguradora. Alguns vão me responder, Miguel o risco continua só que selecionado, foi feito um gerenciamento de risco.

Eu retorno ao principio do mutualismo, ele não é a base de sustentação do mercado?

Agora ele só serve para a sustentação das seguradoras?

Como fogo lembra inferno vamos destacar o inferno que virou a cobertura de incêndio para os corretores de seguros especializados em seguros patrimoniais.

Acessei o site de uma seguradora que figura entre as 10 maiores do Brasil para calcular uma proposta de seguro patrimonial, qual não foi meu espanto ao encontrar na lista de ocupações a palavra “proibido” em 81,35% dos itens. Até aqui não tínhamos nem pensado em gerenciamento de risco. Só a denominação já marginalizava a atividade.

Retornando ao tema, as seguradoras estão aceitando somente os estabelecimentos que não possuem risco. Se não tem risco porque vou fazer seguro?

Se o assunto patrimoniais está batido demais, mudemos, vamos falar de seguro de Veículos. Fomos consultados para fazer o seguro de uma Frota de 12 veículos entre caminhões e pick-ups leves. Pasmem, risco sem aceitação porque eram utilizados no transporte de pneus, muito visado pelos ladrões que acabam ficando com os veículos. Assim sendo, não se aceita porque tem risco. Posso fazer seguro sem risco?

Vários clientes já me disseram que se fosse atender todas as exigências das seguradoras, pagar o prêmio e arcar com as franquias é melhor ficar sem seguro.

Reforço o assunto com uma frase de nosso Confrade Antônio Penteado Mendonça divulgada em artigo da Revista Segurador Brasil nº 97. “O Risco faz parte das atividades humanas. Aliás, se não fizesse, não haveria razão para existir o setor de Seguros…”

Concluindo voltamos para o inicio do tema: Posso fazer seguro de um evento que não tem risco? Boa Fé, onde ela está com o clausulado embolado em que se encontra?

Estou convicto de que meus mestres não me ensinaram errado. Errado está o nosso sistema baseado na lei de Gerson.


Miguel Roberto Soares Silva

É Sócio Gerente das empresas Trevizan & Associados Consultoria e Corretagem de Seguros Ltda e Aste Assessoria e Técnica de Seguros Ltda, Bacharel em Administração de Empresas, Pós graduado em Engenharia de Incêndio, Químico Industrial e Contabilista e Acadêmico da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP.


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