Os 4 fatores pouco conhecidos sobre eficiência operacional das seguradoras que influenciam no valor do seguro

A percepção da sociedade brasileira denota convicção sobre custos elevados para contratação de seguro de automóvel. Trata-se de paradigma histórico que se agrava no contexto de profunda crise econômica a qual impõe restrições de consumo e forte controle de despesas pelas empresas e famílias.  Em maio/2017, de acordo com dados da Serasa Experian, são 61 milhões de brasileiros inadimplentes, confirmando a dificuldade da população em honrar os compromissos financeiros.

No mesmo bojo é notória a dificuldade em pagar o prêmio do seguro, gerando novas práticas do consumidor em pesquisar preços e opções de mercado. Na outra banda, as seguradoras buscam meios de atender as expectativas e garantir o melhor custo-benefício, evitando a fuga de clientes, perda de faturamento e melhoria dos níveis de serviços.  O desafio é enorme.

A conjuntura reafirma a importância da maximização da eficiência operacional das seguradoras com vistas ao incremento contínuo da produtividade em toda a cadeia operacional. Eventuais desperdícios ou ineficiências são anomalias que não comportam espaço na operação, diante da impossibilidade de carregamento no preço final.

Nesse contexto, destacam-se quatro macros atividades pouco conhecidas que influenciam nos resultados das carteiras de automóvel e que integram o grupo de responsabilidades tradicionalmente alocadas no departamento de sinistros das seguradoras como parte do complexo ecossistema de gestão do seguro de automóvel, notadamente sinistros.

  1. Sub-rogação de direitos

Sempre que a seguradora indeniza o segurado em decorrência de um risco coberto poderá perseguir o ressarcimento perante o causador quando devidamente identificado, conforme reza a apólice. Evidentemente que, quanto maior o montante recuperado, mais relevante será a contribuição para o resultado do produto.

Ocorre que a execução eficiente da cadeia de atividades necessárias não é tarefa simples. Existem fatores diversos que podem prejudicar essa operação.  Dentre os principais, destacam-se:

  • A legislação não prevê punições severas para dívidas civis, salvo situações excepcionais;
  • A maioria dos proprietários de veículos no Brasil não possuem seguro de responsabilidade civil, minimizando as tratativas de reembolso entre congêneres, onerando o processo e culminando em resultados incipientes;
  • O desemprego e economia informal prejudicam acordos extrajudiciais, pois muitos causadores receiam assumir parcelamentos em longo prazo junto às seguradoras. Da mesma forma, resta prejudicada a demonstração formal de renda como insumo probatório para instrução de possível cobrança judicial;
  • Não é ocioso ressaltar casos de inequívoca intenção dos causadores em quitar o ônus contraído os quais não encontram eco na política de parcelamento das seguradoras, por vezes pouco flexível;
  • Os custos de cobrança são elevados, desestimulando investimentos nas estruturas operacionais, pesquisas para localização e negociações das cobranças pelas seguradoras e prestadores de serviços;
  • A prova documental acerca da culpabilidade em acidentes de trânsito é por vezes fragilizada. A elaboração de boletins de ocorrência acompanhados de testemunhas arroladas é procedimento pouco praticado;
  • Não obstante a patente morosidade judicial, são muitas as causas promovidas pelas seguradoras com êxito na condenação, todavia a execução por vezes não ocorre pela insuficiência econômica do devedor. No caso, o ônus geral recai sobre o segurador que assume as despesas inerentes.

A construção de políticas alinhadas à realidade social e associadas a flexibilização das cobranças administrativas ocorridas imediatamente à  indenização  promovida,  resultam  em melhores resultados globais nessa atividade.

  1. Gestão das reservas de sinistros

Os sinistros avisados devem ensejar pronta composição de reserva financeira para eventual indenização, incluindo eventos ocorridos e não avisados, conforme normas regulatórias. No caso de automóvel, fatores diversos modificam constantemente os apontamentos iniciais, cuja dinâmica exige agilidade e intenso controle operacional, e, quiçá; automação.

Na prática, o estoque de reservas deve refletir com maior precisão os compromissos previstos, respeitando ainda os prazos de composição no mês de notificação da ocorrência, além de outros controles pertinentes.

Considerando que frequentemente ocorrem inclusões de novos orçamentos, glosas, encerramentos, reaberturas, sinistros avisados que não são indenizados e desistências de reclamações. Caso a seguradora não monitore de forma constante e assertiva o conjunto das movimentações e encerramentos os resultados apurados poderão ser impactados.

A administração das reservas de sinistros envolve outros fatores diversos, impondo efetiva gestão em elevado padrão de desempenho e controle constante, mormente realizado com enorme eficácia pelo segurador.

  1. Recuperação de veículos furtados, roubados e venda dos salvados

Pelo exercício da sub-rogação de direitos após indenizar o segurado pela perda total do veículo, caso ocorra à recuperação do objeto segurado, será o mesmo entregue a seguradora pelo consequente comercialização.

O desafio para mitigação dos prejuízos é estabelecer padrões de execução que culminem no incremento das recuperações dos veículos desaparecidos, bem como a maximização dos valores de venda dos bens advindos das recuperações, incluindo salvados resultantes de colisões, incêndios e demais eventos. O conjunto de atividades executados com eficiência produzirá receitas relevantes que contribuirão para o equilíbrio dos resultados. A experiência demonstra que a celeridade nos processos de desembaraço documental dos veículos recuperados perante as autoridades, bem como demais políticas institucionais, são fatores que auxiliam na preservação dos bens recuperados e consequente valor comercial.

A notória realidade ratifica o elevado índice de roubo e furto de veículos no país, castigando a sociedade com evidente impacto nos custos do seguro. Debalde tentativas diversas, autoridades operam com padrões reduzidos nas apurações e confirmações de autoria, além de incipiente recuperação dos bens subtraídos.

A efetivação de adequados acordos para a venda direta de salvados, leilões, custos de armazenamento e conservação dos bens também são aspectos de grande relevância sobre os resultados e representam grande interesse das seguradoras na execução com zelo e redobrada vigilância.

  1. Negociação dos custos de reparação – perdas parciais

Como é de sabença o conserto dos veículos sinistrados é executado por oficinas mediante liberação das seguradoras quando do reconhecimento da cobertura.  Considerando que a maior fatia de eventos ocorridos refere-se à perda parcial dos veículos, o montante de indenizações é relevante e requer, a implementação das melhores práticas de negociação, execução e controle.

Alguns dos principais fatores de influência sobre os resultados operacionais:

  • Credenciamento de oficinas: através de concentração de serviços existe maior possibilidade de negociação de condições diferenciadas de custos de mão-de-obra e peças, além de menor despesa operacional em deslocamentos e vistorias;
  • Direcionamento para oficinas credenciadas: políticas de incentivos os clientes optarem pelas oficinas, tais como: descontos em franquia, serviços de busca e entrega, dentre outros;
  • Monitoramento dos níveis de serviços: acompanhamento da execução dos reparos que resultam em maior tranquilidade para os clientes e confirmação de indenizações em consonância com os orçamentos aprovados;
  • Fornecimento de peças: alternativa de eventual redução dos custos de aquisição que poderá proporcionar maiores descontos. Trata-se de prática que requer eficiência operacional e logística. Carece de profunda avaliação do custo/benefício.

 

A eficiência operacional das seguradoras é um dos fatores que contribuem para a definição dos valores do seguro – mas não a única – que explica por que diferentes companhias praticam diferentes preços em veículos do mesmo fabricante e modelo. O momento é muito propício para questionamento de padrões globais de operações e quiçá produzir disrupção e geração de novos paradigmas.

A incorporação de valores adicionais que gerem valor e inovação na relação com stakeholders e sociedade demonstra representar não mais um diferencial, mas atributo básico para sobrevivência.

    

Marcello Brancacci
Administrador  – pós  graduado em seguros e previdência/Mackenzie – MBA Economia de Empresas/USP.   Acadêmico e coordenador da cátedra de Seguros de Danos na ANSP: Propriedade,  possui 28 anos de vivência no mercado segurador.

Esta publicação online se destina a divulgação de textos e artigos de Acadêmicos que buscam o aperfeiçoamento institucional do seguro. Os artigos expressam exclusivamente a opinião do Acadêmico.

Expediente – Diretor de Comunicações: Rafael Ribeiro do Valle | Conselho Editorial: João Marcelo dos Santos (Coordenador) | Dilmo Bantim Moreira | Felippe M Paes Barretto | Homero Stabeline Minhoto | Osmar Bertacini | Produção: Oficina do Texto |Jornalista  responsável: Paulo Alexandre | Endereço: Avenida Paulista, 1294 – 4º andar – Conjunto 4B – Edifício Eluma – Bela Vista – São Paulo – SP – CEP 01310-915| Contatos: (11)3333-4067 ou 3661-4164| secretaria@anspnet.org.br  | www.anspnet.org.br |