Quando eu era criança ficava imaginando como seria quando tivesse a idade que tenho agora – 66 anos -, me via como alguém que passaria os dias dentro de casa, de pijama, gorro e pantufas. Mas a realidade mostrou-se bem diferente. Pois bem, me aposentei na previdência pública com 55 anos, e fundei a minha própria corretora de seguros, que já tem 11 anos. Estou em plena atividade. Porém isso não vai durar para sempre. Sei que chegará o dia em que vou precisar parar, sem condições físicas para continuar, e quero me manter independente financeiramente. Estou me preparando para isso. Quero também proteger minha família, caso eu falte. Mas, essas são preocupações da minha geração. Meus pais ou avós não pensavam nisso. De lá para cá, o mundo parece outro, e a terceira idade nunca esteve tão ativa quanto hoje. Mas, o que fez mudar o cenário de forma tão contundente?

MAIS QUALIDADE DE VIDA = MAIOR NÚMERO DE IDOSOS

Em primeiro lugar é importante citar que houve uma considerável melhora na qualidade de vida. Na área da saúde, os progressos foram muitos: os programas de vacinação em massa reduziram a disseminação de doenças de alta letalidade; investimentos maciços dos grandes laboratórios resultaram em medicamentos novos e mais eficientes; e os tratamentos médicos se beneficiaram enormemente com o uso da alta tecnologia. Além disso, hoje a população, de modo geral, é mais bem informada a respeito de fatores essenciais para à obtenção da saúde e da longevidade como: a importância da boa alimentação, hábitos de higiene e a necessidade de consultas médicas periódicas. Tudo isso somado fez com que a expectativa média de vida de uma pessoa nascida hoje no Brasil, seja de 76,3 anos (segundo o IBGE, com dados de 2018).

Continuando a comparação da minha geração, com a dos meus pais, nota-se que: em 1940, de cada mil pessoas que atingiam 65 anos (praticamente a minha idade), só 259 chegariam aos 80 anos ou mais. Hoje, esse número subiu para 637. Ter chegado aos 66 anos indica que tenho boas chances de me tornar um octogenário. Bom, essa é a parte boa! O problema é que mais gente chegando aos 80, 90 anos ou mais vai demandar muito mais recursos voltados à aposentadoria. E haverá menos gente jovem trabalhando para pagar essa conta, porque estamos passando por uma grande transição demográfica.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017 o país tinha 28 milhões de idosos – o que equivalia a 13,5% do total da população brasileira. A previsão é de que, em 2042, a população de idosos atinja cerca de 25% do total.

APOSENTADORIA – MOMENTO DE DESCANSO OU DE PREOCUPAÇÃO?

Governos de todo o mundo – inclusive o brasileiro – tiveram de se ajustar a essa nova realidade. Tudo indica que ficará cada vez mais difícil se aposentar, e com proventos cada vez menores. Para piorar, a inflação enfrentada pela população idosa é mais alta. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o acumulado de 2018 (dados mais recentes) do Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade (IPC-3i) teve uma alta de 4,75%, bem maior que os 3,75% do IPCA, a inflação oficial do país no mesmo período.

Uma saída para esse impasse é a previdência complementar, que para ser interessante deve ser contratada enquanto se é jovem. Quanto mais cedo for iniciada, mais barato será o investimento mensal feito nesse produto.

 Parte da população – principalmente os mais jovens – encontra nos seus empregadores a iniciativa de começar a poupar em uma previdência complementar, e algumas dessas empresas contribuem com parcelas importantes de capital. Mas, infelizmente o brasileiro tem um histórico de não poupar, então grande parte da população mais idosa não conta com esse benefício, apesar da legislação brasileira oferecer incentivos fiscais para todos os cidadãos que investem na previdência complementar, nem isso promove esse investimento como deveria, o que é uma pena.

SEGURO DE VIDA – PROTEÇÃO PARA QUEM A GENTE AMA

É verdade que ninguém quer pensar na própria morte, mas o seguro de vida é um produto muito barato para a tranquilidade e segurança que traz.

Naturalmente, quanto mais idade temos, teremos menos pessoas que sofreriam com a nossa falta no papel de provedor: os filhos já estarão formados, o financiamento da casa já terá sido pago, na sua falta a esposa contará com a sua aposentadoria pública e com as eventuais reservas acumuladas.

Consequentemente, os valores de capital, ou seja, os valores de indenização em caso de morte, podem ser menores, barateando ainda mais o preço do seguro de vida. Só um detalhe: quem não contratar o seguro de vida ainda jovem, não conseguirá fazê-lo depois dos 60 anos, e os valores de capital, ou seja, as indenizações a serem contratadas serão muito baixas.

PLANO DE SAÚDE – O VILÃO NECESSÁRIO

Em contrapartida, o plano de saúde vai aumentando de preço com o aumento da idade das pessoas. Neste produto, quanto mais idade, mais caro é o plano. A sorte dos mais maduros foi a criação do estatuto do idoso. Criado pela lei no 10.741, de 1º de Outubro de 2003, ele impactou os preços dos planos de saúde de forma positiva para os idosos, pois faz o preço dos planos dos mais jovens subsidiarem o preço dos planos dos mais velhos. Porém, essa medida, junto com outras leis que favorecem a população em geral, acabou levando as principais operadoras a não comercializarem mais planos de saúde individuais e familiares, o que gera muitas dificuldades para o idoso adquirir um plano de saúde de mais qualidade.

Faz-se necessário aqui aumentar o número de intervalos nas faixas etárias, pois atualmente os planos de saúde param de aumentar de preço, por idade, após os 59 anos, quando a expectativa de vida média dos brasileiros é de 76,3 anos.

Aqui também vivemos o fenômeno da pejotização, ou seja, o cidadão tem que ter um CNPJ se quiser adquirir um plano de saúde com uma gama maior de ofertas. O custo com os planos de saúde tem tomado boa parte das aposentadorias dos idosos, em um crescimento geométrico de preços, pois para manter-se os percentuais dos últimos anos, teremos os planos de saúde dobrando de preço a cada três anos, o que é um absurdo numa economia estável como a brasileira.

Infelizmente, o serviço público de saúde não consegue atender a população no tempo e na qualidade minimamente desejada, embora ainda tenhamos algumas ilhas de qualidade que são pouco divulgadas.

As pessoas da minha geração têm a necessidade de possuir um plano de saúde com qualidade, mas, infelizmente o que vemos são pessoas desistindo de pagar os seus planos de saúde e indo congestionar ainda mais o SUS. Muitos fizeram downgrade, indo para planos de saúde mais baratos e de menor qualidade.

Precisamos solucionar essa realidade, pois já temos os senhores estagiários, ou seja, pessoas recomeçando as suas carreiras, com muita energia. Temos o fenômeno também dos pais-avós, idosos que resolvem ter filhos após 50, ou 60 anos. Como prover uma oferta de plano de saúde para essa nova parcela da sociedade que assume a criação de um filho com a idade mais avançada? Temos também nas famílias mais pobres o fenômeno do provedor ser um avô, com a sua parca aposentadoria, o que não deixa espaço para a aquisição de um plano de saúde.

Concorre ainda com os gastos do cidadão idoso com a compra de medicamentos. Já temos em muitos países o fornecimento dos remédios prescritos pelos médicos incluídos na cobertura do plano de saúde.

Na sociedade contemporânea também temos um novo mercado que são as casas de repouso que acabam liquidando com a aposentadoria de boa parte dos idosos, concorrendo para a impossibilidade da contratação de um plano de saúde. Quando os idosos não são levados para as casas de repouso, passamos a ter a figura do cuidador em casa, o que também concorre com o orçamento do idoso.

São muitas as questões a serem discutidas. É urgente a necessidade de se pensar não só em se viver mais, mas em que essa vida não seja um tormento para o idoso. E nem um peso extraordinário para seus filhos.

 

[i] Cátedra de Saúde/Com curadoria e revisão da jornalista Laís Rigotti.

*João Carlos Rodrigues

Formado em administração de empresas pela Faculdade Capital, em 1990. É o sócio fundador da corretora JC DVCO Seg Corretora e Consultoria de Seguros LTDA.  Membro da Cátedra de Saúde da ANSP.

 

Esta publicação online se destina a divulgação de textos e artigos de Acadêmicos que buscam o aperfeiçoamento institucional do seguro. Os artigos expressam exclusivamente a opinião do Acadêmico.

Expediente – Diretor de Comunicações: Rafael Ribeiro do Valle | Conselho Editorial: João Marcelo dos Santos (Coordenador) | Dilmo Bantim Moreira | Felippe M Paes Barretto | Homero Stabeline Minhoto | Osmar Bertacini | Produção: Oficina do Texto |Jornalista  responsável: Paulo Alexandre | Endereço: Avenida Paulista, 1294 – 4º andar – Conjunto 4B – Edifício Eluma – Bela Vista – São Paulo – SP – CEP 01310-915| Contatos: (11)3335-5665  | secretaria@anspnet.org.br  | www.anspnet.org.br |