Quando pensamos em proteção previdenciária, acabamos obrigatoriamente tendo que pensar em planejamento, nos veículos de poupança existentes e, principalmente, no estabelecimento de metas individuais de longo prazo. O problema é que as metas de longo prazo fazem parte de uma espécie de mundo fictício, hipotético, formado a partir de projeções futurísticas geradas pela nossa própria mente. Qual será a nossa situação daqui a 30, 40 ou 50 anos? Teremos uma vida autossustentável e independente sob a perspectiva econômica e financeira? E a nossa saúde, como estará? No fundo, sabemos que esse tipo de exercício mental pode nos causar certo desconforto emocional. Não é agradável imaginar a possibilidade de nos encontrarmos em situações de risco ou de vulnerabilidade. Assim, vamos levando o dia-a-dia evitando pensar em um dos mais importantes riscos sociais: a longevidade e os seus desdobramentos.

Estabelecer metas de longo prazo não é algo tão simples. Além do desconforto emocional, existem outros ingredientes que dificultam a visão de futuro. No caso da previdência complementar, o fator tempo é um grande complicador. Sofremos do mal da urgência e detestamos ter que abrir mão de uma satisfação imediata (no presente) para alcançarmos um eventual ganho lá adiante (no futuro). Poupar e economizar são comportamentos muito recentes na história da humanidade. Apesar de nossa espécie ter surgido há 200 mil anos, somente nos últimos 6% da nossa existência deixamos de ser nômades caçadores-coletores. Nossos antepassados não possuíam geladeiras, não estocavam alimentos, muito menos se preocupavam em acumular alguma riqueza ao longo da vida para enfrentar os desafios da longevidade. A subsistência em prol da preservação da espécie era o máximo da preocupação. Para os nossos ancestrais do tempo das cavernas, a distância entre a vida e a morte era muito curta. A fim de garantir a sobrevivência, seu cérebro funcionava voltado para o imediatismo: “Tenho medo que o tigre me pegue, vou correr”. “Tenho fome, vou caçar”. “Tenho sede, vou beber”…

Pode parecer estranho, mas o imediatismo herdado dos nossos antepassados acabou se potencializando nos dias atuais. O mal da urgência é influenciado pelo contexto sociocultural da pós-modernidade. Nesse cenário, a visão de vida orientada para a construção de um futuro sustentável fica relegada ao segundo plano, uma vez que os principais valores da sociedade contemporânea estão voltados para a satisfação dos desejos e das gratificações de curto prazo.

Por exemplo, queremos encontrar a “felicidade” a todo custo e de modo instantâneo, mesmo sem entender exatamente o seu verdadeiro significado. E o pior: muitas vezes acabamos agindo no presente, hipotecando nossos limitados recursos de forma equivocada, na frenética busca da felicidade baseada na aprovação social. Assim, vamos dando um jeitinho de concretizar os nossos desejos imediatos, comprometendo o nosso futuro. Em nome da urgência, preferimos entrar no cheque especial ou no rotativo do cartão de crédito e pagar juros exorbitantes a resgatar parte do dinheiro investido na caderneta de poupança ou em um fundo de investimento. Ou concordamos em pagar parceladamente aquilo que não podemos pagar à vista, comprometendo a nossa renda futura. Quem nos autoriza, nesse caso, é um viés denominado pelos estudiosos da economia comportamental de contabilidade mental (o conceito de contabilidade mental foi descrito pela primeira vez pelo economista comportamental Richard Thaler, em 1980,no artigo “Toward a positive theory of consumer choice“, publicado no Journal of Economic Behavior and Organization).

Acontece que a nossa contabilidade mental utiliza uma espécie de calculadora para fazer as contas, só que não tem precisão científica, nem opera com valores objetivos. Fazemos cálculos mirabolantes, que nos dão a falsa impressão de que o nosso “orçamento” vai fechar no fim do mês e que até vai dar para trocar o nosso smartphone, mas “desconsideramos” que estamos realizando as contas com o salário bruto e não com o salário líquido, por exemplo. E o pior é que essa calculadora é sempre tendenciosa: no final, ela dá um jeitinho de fechar as contas a favor das nossas gratificações imediatas. Fazer as contas “de cabeça” pode nos colocar numa fria.

Mesmo quem já tem um plano para o futuro, como a previdência complementar, não está imune à armadilha da contabilidade mental e pode, inclusive, ver frustradas as suas expectativas futuras. O fato de já estar contribuindo para um determinado plano previdenciário pode gerar um efeito tranquilizador, e, como consequência, a calculadora mental pode desconsiderar a necessidade de revisão periódica do nível contributivo. E, com o passar do tempo, as contribuições podem se tornar insuficientes para gerar um benefício compatível com as nossas necessidades futuras.

Assim, o resultado lá na frente será a frustração. Contribuir com pouco e achar que o pouco vai resolver tudo é um sintoma do uso da calculadora mental no cenário da previdência complementar.

Outra armadilha que pode surgir quando estabelecemos um planejamento de longo prazo é menosprezarmos os custos que envolvem a ampliação da nossa longevidade, como a elevação das despesas com medicamentos, plano de saúde, mobilidade e a possibilidade de depender de outras pessoas. O maior equívoco, neste caso, é a nossa contabilidade mental operar em regime de caixa, ao invés de operar em regime de competência. Contudo, o futuro é um compromisso inadiável e inevitável e, estejamos preparados ou não, um dia ele chega.


Sérgio Rangel Guimarães 

É professor de Atuária e de Gestão de Riscos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS; diretor e acadêmico da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP; consultor sênior da Mirador Atuarial – rangel@mirador-atuarial.com.br


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