O seguro, na sua essência, existe em função da nossa fragilidade perante o risco. Independente da nossa vontade, somos frágeis e vulneráveis a eventos aleatórios. Os recentes acontecimentos em Paris, que tiverem início no atentado contra a sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, evidenciam essa situação. O fato de vivermos em um mundo cada vez mais impermanente, instável e impaciente nos submete a novos e inimagináveis riscos. Mas por que a sombra do terrorismo nos assusta tanto? Por que as consequências desses atos são tão desproporcionais? Vamos tentar esclarecer essas questões a partir de alguns exemplos.

Inicialmente, somos unânimes em concordar que os passageiros dos aviões devem ser revistados antes de embarcarem, pois é imprescindível verificar se estão portando algum tipo de arma ou explosivo. Ou seja, o nosso senso comum parte do pressuposto de que, até que se prove o contrário, enquanto passageiros, somos todos suspeitos em potencial, certo? Errado! Pelos princípios probabilísticos, a possibilidade de existir um terrorista a bordo é ínfima. Então, por que tomarmos medidas preventivas como revistar 100% dos passageiros de um voo? A resposta é porque somos extremamente frágeis a eventos como o terrorismo. Estamos interessados no saldo final, e a consequência de alguém ser terrorista pode ser desproporcionalmente elevada. Recordando os atos criminosos dos terroristas que embarcaram nos voos da American Airlines em 11 de setembro de 2001 ou daqueles que entraram na redação do Charlie Hebdo, em ambos os casos, as consequências não foram lineares. Não linearidade significa dizer que a fragilidade não se comporta como uma linha reta. Por isso, as consequências de tais eventos são consideradas desproporcionais.

Em nosso planeta ocorrem, por dia, cerca de oito mil terremotos. A maioria desses acontecimentos é inofensiva, com magnitude abaixo de dois na escala Richter. Nossa fragilidade não se situa nos microterremotos, mas nos raros eventos de magnitude maior que seis. Da mesma forma, no seguro de automóvel suportamos os eventos (sinistros) que ocorrem abaixo da franquia estabelecida, porém somos extremamente frágeis diante das consequências desproporcionais decorrentes de eventual perda total do nosso carro.

Outro exemplo sobre o nosso veículo. Se colidirmos a uma velocidade de 50 km/h contra um muro, haverá muito mais destroços do que se colidirmos dez vezes contra o mesmo muro a 5 km/h. Ou seja, o dano gerado pelo evento a 50 km/h não é dez vezes superior ao dano de 5 km/h. É simplesmente muito maior! Isso se deve as consequências não lineares da fragilidade. Portanto, em tais situações, tal como frente a eventual ameaça de terrorismo, a nossa fragilidade acaba se ampliando.

O libanês Nassim Taleb apresenta no seu novo livro intitulado “Antifragile: things that gain from disorder” um relato interessante, retirado da antiga tradição rabínica, que bem ilustra esse conceito. Certa vez um rei, bastante chateado com o seu filho, jurou que a punição a ele imposta seria aplicada por meio de apedrejamento, com uma grande pedra. Passado o momento de fúria, quando se acalmou, o rei deu-se conta de que havia criado um grande problema para si: exagerou na punição e não podia voltar atrás, porque um rei que rompe um juramento não é digno de reinar. Quase à beira do desespero, o rei resolveu consultar um sábio conselheiro, que lhe trouxe uma solução: quebrar a grande pedra em pedaços bem pequenos e apedrejar com eles o filho insolente. Assim, o juramento feito não seria quebrado e a vida do filho provavelmente seria poupada. Moral da história: a diferença entre mil pedras pequenas e uma pedra grande, de peso equivalente, é uma ilustração muito precisa de que a fragilidade é produto de consequências não lineares.

Para o frágil, o efeito cumulativo de muitos impactos de pequenas proporções é menor do que o efeito de um grande impacto. Da mesma forma, o mercado de seguros se beneficia da nossa fragilidade, utilizando o mesmo artifício sugerido pelo sábio conselheiro do rei: transformar pedras grandes (sinistros) em pedras pequenas (prêmios), perfeitamente suportáveis pelos segurados dentro dos arranjos mutualísticos.


Sérgio Rangel Guimarães

É Atuário e Mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Professor de Atuária e Gestão de Riscos da UFRGS, Diretor do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças – IBEF, Consultor Sênior da Mirador Atuarial, Diretor Regional Sul da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP.


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