Qual a razão para que a curva de contaminações pela Covid 19 tenha se estabilizado em nível excessivamente alto e não dê sinais de que vá cair tão cedo? Essa questão também poderia ser colocada de outra maneira: O que faltou ser considerado no plano de gestão de crise que vem resultando na estabilização continuada da curva de contaminações em níveis excessivamente altos?

Todos sabemos que, desde quando se tomou conhecimento de que o Brasil poderia ser alcançado pela Covid 19, a grande preocupação das autoridades se concentrou em evitar o colapso da infraestrutura médico hospitalar disponível no país, frente ao potencial acréscimo na demanda de atendimentos.

 Por essa razão, a medida preventiva recomendada foi a implementação do isolamento social. Qual o efeito esperado pelas autoridades sanitárias ao tomar essa medida? Conseguir que, com o “achatamento da curva de contágio”, fosse mantido o número de contaminados abaixo dos limites da capacidade de atendimento da infraestrutura médica existente. Todavia, um componente inesperado e indesejado da resposta obtida com o achatamento, foi a longa duração do patamar de estabilidade do contágio em níveis excessivamente altos.

O que se pretende com esse texto é discutir as possíveis causas dessa resposta e formas de introduzir medidas reparadoras. Dentro desse objetivo, uma consideração é que no estabelecimento do isolamento social, não foi levado em conta como premissa que, a todo processo de fechamento segue-se um processo de abertura, ou seja, fechamento e abertura fazem parte de uma mesma dinâmica.

Assim deveria ter sido previsto pelo plano de gestão de crise que, durante o período de isolamento social fossem geradas informações que orientassem as ações da flexibilização do isolamento. Da qualidade dessas informações, emergiriam as garantias para que a abertura pudesse ser realizada com total segurança, sem o risco de recrudescimento da contaminação.

Ocorre que isso não aconteceu. As únicas informações disponíveis depois que o patamar da curva de contágio foi alcançado eram, o número de contaminados e de mortos, e o número de leitos disponíveis em cada município. Com essas informações insuficientes para garantir a sua segurança, foi iniciado o processo de flexibilização.

Sempre soube-se que seriam necessárias informações complementares para embasar pretendida flexibilização. Se assim não fosse, não existiriam posições antagônicas entre os profissionais ligados à saúde, governantes e empresários.

As respostas às questões colocadas na abertura deste texto, estão diretamente relacionadas com as condições de preparo e planejamento para o enfrentamento de uma crise como a da Covid 19.

Planejamento das Ações de Enfrentamento

…um plano de gestão de crises deve se fundamentar em programas prévios de gestão de riscos…

 

Usualmente, um plano de gestão de crises decorre de um programa prévio de gestão de riscos. Esse programa identifica e analisa riscos, formula cenários que considerem a realização dos possíveis acontecimentos futuros e suas consequências. Com base nessas informações são planejadas ações emergenciais e de contingência, bem como, definidas as responsabilidades.

No caso da Covid 19, a inexistência de um programa prévio de gestão de riscos de pandemias, resultou na elaboração de um plano de gestão de crises considerando apenas os recursos existentes, os que seriam necessários adicionar para o enfrentamento e, a quem caberia a responsabilidade das ações. Não se considerou cenários.

A partir de então, alguns problemas foram gerados, e dentre eles, os que resultaram na manutenção do patamar de contágio.

 

Razão do patamar continuado

…o patamar decorre da atuação simultânea de duas frentes de contaminação …

Ao se definir pela implementação do isolamento social, não se considerou características importantes que diferenciam o comportamento da população com um todo, como por exemplo, desigualdades sociais. Como consequência disso a resposta da população às medidas impostas pelas autoridades sanitárias, não foi linear, isto é, nem todos se comportaram como desejado.

Dentre as hipóteses possíveis que expliquem esse comportamento, a que consideramos mais plausível, se baseia na suposição de que existam duas grandes e bem distintas frentes de contaminação, atuando simultaneamente.

A primeira frente seria constituída pela parcela mais consciente da população que vive em ambientes mais protegidos. Pré-supostamente essa parcela, é a que procura seguir fielmente às orientações das autoridades sanitárias; e que, quando por necessidade, seja obrigada a visitar outros ambientes, procura aqueles ambientes onde, sabidamente, reine um alto nível de conscientização e precaução. A outra frente é representada pela parcela complementar da população que não aceita ou que, por força das circunstâncias, não tem condições para seguir as orientações das autoridades sanitárias, expondo-se, deliberadamente ou não, ao risco de contaminação. Essa segunda frente seria constituída basicamente por três tipos de integrantes:

Os recalcitrantes, pessoas que por ignorância ou por irreverência tentam desacreditar o que a ciência já demostrou, não seguindo as recomendações das autoridades sanitárias e até agindo deliberadamente contra elas. Essas pessoas estão distribuídas por todas as classes sociais e só são identificadas quando agem ou se manifestam.

Os assintomáticos, pessoas que mesmo contaminadas, não se apercebem dos efeitos da doença, tornando-as vetores inconscientes de contaminação. Essas pessoas encontram-se igualmente distribuídas em todas as classes sociais, e só podem ser identificadas mediante a submissão à testes laboratoriais.

Os desassistidos, pessoas que representam o resultado das desigualdades sociais que caracterizam o nosso país. Um bom exemplo disso foi a identificação pela Caixa Econômica Federal, de uma parte da população com cerca de 38 milhões de pessoas, totalmente invisíveis aos olhos das autoridades governamentais. São pessoas que necessitam buscar diariamente, os meios para alimentar a si e aos seus, que não possuem os recursos mínimos para adquirir máscaras e produtos de limpeza, e que ainda não dispõem em suas moradias, das facilidades de água tratada e esgotos. Essas pessoas, supostamente, constituem a maior parcela dessa segunda frente de contaminação e estão normalmente localizadas nas periferias das cidades. A esse grupo deve se juntar as comunidades indígenas, quilombolas e sem teto. Cada uma dessas frentes gera a sua respectiva curva de contaminação, cujos comportamentos se apresentam de forma distinta.

Pelo fato da contaminação ter se iniciado no seio das classes mais altas, a curva gerada pela primeira frente conduziu ao alcance do patamar de contaminação mais rapidamente dando início ao seu declínio. Enquanto isso, a curva gerada pela segunda frente, onde o processo de contaminação aconteceu mais tardiamente, ainda se apresenta em fase de crescimento sem qualquer previsão de alcance do patamar de estabilização.

Os números de casos divulgados diariamente representam o efeito acumulado da atuação simultânea das duas frentes. Assim, o patamar atualmente existente caracteriza o equilíbrio dinâmico decorrente da tendência dos respectivos decréscimos e acréscimos de contaminação, se igualarem. Ou seja, o decréscimo de contaminação gerado pela primeira frente é anulado ou superado pelo acréscimo de contaminação gerado pela segunda frente, o que resulta no patamar.

Se essa hipótese apresentada for verdadeira, fica evidente que as medidas de controle de ordem geral inicialmente implantadas, já não apresentam efeitos tão sensíveis, que são reduzidos e até anulados, em razão do crescimento de contaminados oriundos da segunda frente.

Forma de correção

…medidas de controle específicas sobre a frente que atua contrariamente às recomendações…

Nessas condições, a forma mais adequada para romper o citado equilíbrio, seria à geração de novas medidas de prevenção e controle específicas, direcionadas aos indivíduos integrantes da segunda frente, caso contrário, a tendência de retomada das contaminações seguramente se realizará.

Focalização das ações corretivas

…é necessário focalizar as ações específicas de controle sobre os polos de contaminação…

Outra consideração é que, a divulgação dos casos de contaminação e mortes é feita em bases territoriais, ou seja, por estados, municípios, e sub-regiões de grandes municípios. E é com base nessa percepção, que foram desenvolvidas e implementadas as medidas iniciais de controle de controle contaminação.

Ocorre que essa forma de divulgação conduz à interpretação errônea de que, a distribuição territorial dos casos de contaminação se dê de forma homogênea. Essa interpretação é equivocada, uma vez que, na realidade, existem polos de contaminação, onde se situam concentrações de contaminados. Não se sabe onde as pessoas se contaminam, todavia, sabe-se que, uma vez contaminadas, elas tendem a contaminar outras pessoas nos locais onde permaneçam na maior parte do tempo, moradias e locais de trabalho, passam naturalmente, a dar início à constituição de microrregiões ou polos de onde a contaminação se irradia.

Supondo que essas afirmações sejam verdadeiras, as soluções de controle da evolução da contaminação devem ser elaboradas a partir das evidências específicas inerentes a cada uma das microrregiões. Sabe-se que evidencias extraídas de microrregiões conduzem às soluções muito mais assertivas e confiáveis, do que soluções de ordem geral.

Identificação dos focos para aplicação de ações corretivas

…as ações de controle de contaminação devem ser originadas em evidencias locais…

Uma última consideração quanto a problemas gerado pela ausência de um plano de gestão de riscos prévio, é a não utilização de ferramentas existentes que possam facilitar a localização das microrregiões ou polos de contaminação. Essa localização pode ser feita a partir do selecionamento de contaminados por logradouros identificados pelo respectivo CEP.

A título de exemplificação suponha-se que, a partir de selecionamento seja buscado identificar a existência de indivíduos contaminados existentes no CEP 13165 – 041. Esse código representa um logradouro, isto é, uma rua ou um trecho de uma rua, de um setor de um bairro da região de Campinas, no estado de São Paulo. As respostas possíveis são, não existe qualquer indivíduo contaminado ou existem alguns… Havendo contaminados, está caracterizado um polo de contaminação.

A partir daí, devem ser desenvolvidas ações no sentido do efetivo controle da contaminação, como o acompanhamento da evolução dos tratamentos, a realização de testes nas pessoas próximas aos contaminados, o estabelecimento de quarentenas, busca de satisfação das necessidades específicas dos circunstantes para incentivo à manutenção do distanciamento e o rastreamento de potenciais contaminados.

Uma outra vantagem da utilização da estrutura do CEP é a codificação de “CEP coletivo” que permite a identificação de comunidades menos assistidas. Nesse caso, a atuação das autoridades pode e deve contar com a colaboração das lideranças locais, incentivando as suas iniciativas.

A repetição periódica dos selecionamentos permitirá a visualização da efetividade do controle de todos os casos e sua evolução. Evolução essa que, quando acompanhada pelo estabelecimento do código de cores, facilitará em muito a eficácia do processo de gerenciamento municipal da crise.

Identificando inclusive, áreas de contaminação nula dentro de um mesmo município, viabilizando, tanto a implementação de isolamento, como de flexibilização seletivos e seguros.

Conclusão

A conclusão que se pretende demonstrar de tudo que foi exposto, é que a Gestão de Riscos também se aplica ao controle de riscos não diretamente relacionados com as atividades normais das organizações, mas que possam impactar simultaneamente as operações de organizações públicas e privadas. A utilização da Gestão de Riscos de forma individual ou integrada, é fundamental à otimização da administração das organizações públicas ou privadas, com sensíveis melhorias nos resultados planejados e na minimização dos impactos gerados por acontecimentos adversos.

*Marcos Lúcio de Moura e Souza

Coordenador da Cátedra de Gerência de Riscos da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP.

 

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